Bodas na ditadura: casamento como ato político

Bodas na ditadura: casamento como ato político

O camburão para na porta do presídio Esmeraldino Bandeira, em Bangu. Nele entra Jarbas Silva Marques, com 32 anos, preso político. O ano é 1975. O dia, chuvoso, 26 de novembro. O veículo segue sua rota. Fará mais uma parada – no presídio Talavera Bruce, também em Bangu. Desta vez, é Inês Etienne Romeu que entra na viatura militar. Os dois estão a caminho do seu casamento.

Inês e Jarbas se conheceram em Belo Horizonte, em 1963. “Ela estudava sociologia e era funcionária de um banco estatal de Goiás. Nos encontramos no bar que reunia toda a esquerda da época, na capital mineira, o Butcheco”, recorda-se Jarbas.

O reencontro só aconteceria mais de uma década depois, no camburão, a caminho do casamento. Jarbas vestia uma blusa vermelha e calça azul. “Escolhi a roupa para aparecer com as cores do Vietcong e da Revolução Cubana”, disse. Inês usava vestido preto de seda bordado de flor e trancinhas na lateral do cabelo.

Era um ato político. “O casamento, tornado público, seria uma forma de protegê-la, pela visibilidade que daria a ela”, conta a jornalista Lucia Etienne Romeu, irmã caçula de Inês que, em 1971, foi condenada à prisão perpétua e era única sobrevivente, depois de 96 dias de tortura, da Casa da Morte, ponto clandestino mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis (RJ), onde estima-se terem sido executados pelo menos 22 presos políticos.

Em 1975, Ano Internacional da Mulher definido pela Organização das Nações Unidas (ONU), a divulgação do matrimônio comprovaria a existência de presos políticos no Brasil, contradizendo os militares. Além disso, ”Inês era a única mulher no mundo, naquele momento, condenada à prisão perpétua”, lembra Jarbas.

No caminho até o antigo Palácio da Justiça, no Centro do Rio, Inês e Jarbas tiveram alguns minutos para conversar depois de 13 anos. “Foi um universo de atropelos, troca de assuntos, falamos da Casa da Morte, mas por mensagem cifrada”, conta Jarbas e acrescenta: “Falamos também da segurança dela e eu aconselhei a ficar do meu lado esquerdo para protegê-la com o próprio corpo, caso precisasse”. Saíram do camburão. Ele algemado com as mãos para frente, ela livre. As algemas de Jarbas só foram retiradas para assinar os papéis e trocar alianças. Durante a cerimônia Inês estava sorrindo, apesar de rodeada por vinte policiais com metralhadora, e de o clima estar tenso e pesado. O momento foi eternizado por
imagens feitas pelo então estudante de economia, Bruno Scharfstein, com uma câmera de Super 8, que só foram divulgadas após 40 anos, em 2015.

Em mais de uma década sem se ver, os noivos trocaram cerca de 200 cartas cifradas, para escapar da censura. Uma delas, obtida pelo jornal O GLOBO, foi enviada por Inês quatro dias antes do casamento e dizia:

“Jarbas querido, estou numa agonia que faz dó! Que loucura, sô! Mas estou me “preparando” incrivelmente e vou chegar lá linda, maravilhosa, livre. Acho que um pouco chocante, prepare-se pra isso. É que quero mostrar minha liberdade e o paradoxo da situação toda. Sabe, acho que você é produto da minha imaginação, dos meus sonhos, anseios. Te espero para ser sua mulher e te amar profundamente. Venha também livre, solto, bonito. Sou, hoje, a sua imaginação e sonho. Quem sabe pode se tornar realidade? Beijos e beijos, Inês”.

A cerimônia não durou mais do que um minuto. As imagens mostram os dois subindo a escada rolante do Palácio e sendo colocados em frente ao juiz José de Mesquita Lara. Depois do beijo e do longo abraço, os noivos brindaram com água. Casados, voltaram para o camburão, que arrancou em alta velocidade, fazendo com que o casal tombasse deum lado a outro. Jarbas conta que, no interior da viatura, ainda tiveram oportunidade de conversar sobre o que tinha acabado de ocorrer. “Um falou para o outro quem viu na cerimônia. Foi uma emoção sem controle”, disse. Do camburão, cada um voltou para o presídio de origem. Jarbas contou que o casamento não deu certo por marcas das torturas que carregavam. Ele foi solto em 1977 e chegou a visitar Inês na cadeia uma vez. Ela foi a última presa política do Brasil a ser liberada, saindo apenas em 1979, com a Lei da Anistia. Se separaram oficialmente em 1984.

Uma vida de lutas

Inês Etienne Romeu nasceu em Pouso Alegre (MG), em 22 de agosto de 1942, a sexta de oito irmãos. Foi criada em Caratinga (MG), cidade onde seus pais se casaram e tiveram os três primeiros filhos, e para onde voltaram em 1950, já com a prole de oito. Seu pai era bancário e sua mãe, escrevente da Justiça. Ambos atuantes na vida política da cidade.

No início dos anos 60, Inês mudou-se com a família para Belo Horizonte. Lá fez vestibular para o curso de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e começou a trabalhar no Banco Mineiro da Produção, que depois passou a se denominar Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge).

No final do segundo ano de Sociologia, transferiu-se para o curso de História, da mesma universidade. Depois do golpe de 1964, passou à militância contra a ditadura, primeiramente na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop). Em 1969, já perseguida pelos órgãos da repressão, foi para o Rio, onde viveu na clandestinidade, integrando a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Em 5 de maio de 1971, em uma viagem a São Paulo para um encontro com um companheiro, foi presa pelo delegado Sergio Paranhos Fleury e sua equipe. Começaram as sessões de tortura que perduraram por meses.

Inês defendia a justiça social. Segundo sua irmã caçula, Lucia Etienne Romão, “Inês era uma pessoa muito corajosa e íntegra, marcando sua luta com essas qualidades”.

Foi ela quem revelou a existência da Casa da Morte. Enquanto esteve em cativeiro, guardou informações que depois foram decisivas para a localização da casa, como o número do telefone. Já em liberdade, depois da anistia, foi até o local fazer o reconhecimento, acompanhada dos principais veículos de imprensa. Inês faleceu em abril de 2015.

=>Matéria publicada na Revista Mátria de 2016, acesse o PDF: http://goo.gl/Osb8xt.

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